31 de dezembro de 2006


2007

Um ano difícil chega ao fim. Horribilis a muitos títulos. A crise financeira veio para ficar, apesar da loucura natalícia nas lojas. O pior dos portugueses veio ao de cima e o "salve-se quem puder" está mais forte do que nunca.
Foi o ano do aparecimento descarado da "crítica light", a movida pelo desprezo total pelo mérito dos autores e pelo despeito pessoal. Gente do mais medíocre publicou livros que afirmam não ter o país, à excepção dela própria (dona de uma ficção inexplicavelmente recusada por todas as editoras...), escritores a sério. Os que cá andamos somos todos uma merda e a salvação virá das suas construções de lama. Para grande surpresa, estas afirmações foram recebidas e amplificadas com aplauso ou com uma cumplicidade reveladora.
Sobre este assunto, ficam registados dois dos votos de Miguel Sousa Tavares no EXPRESSO para o próximo ano: "Que, em todos os sectores da vida pública, o talento, o mérito e o trabalho triunfassem sobre a inveja, a incompetência e a mediocridade". E o segundo: "Que o país se concentrasse na defesa daquilo que é essencial: a língua, a cultura, a educação, o território, o património e a paisagem". Não creio que estes desejos se concretizem, pois como afirma Clara Ferreira Alves na mesma página "Um grande ano de 2007 seria aquele em que deixássemos de ter o desejo, a necessidade, a obrigação, o nojo de partir". Porque "isto" não vai mudar. E "isto" é Portugal.
Por isso, para os mais sonhadores desejo que se mantenham no ar, no território das nuvens, lá, onde as vozes dos predadores não chegam. Para os que preferem andar com os pés na terra, votos de muita coragem, porque o lixo trazido pela maré baixa vai continuar a colar-se à cara das pessoas honestas.


"Narcisus", Caravaggio

30 de dezembro de 2006

PENA BUSH

O presidente dos states já veio afirmar que o enforcamento de Saddam "vai ser bom para a paz mundial". Ao ouvir isto e ver as imagens do suplício percebemos que na Europa já não estamos no lugar histórico-medievo de onde o ditador provinha, nem tão pouco no mundo de faroeste dos USA que tantos tomam como modelo de desenvolvimento.
Repugnante.

29 de dezembro de 2006

PALAVRAS PARA QUÊ? É UM ARTISTA PORTUGUÊS E USA... O QUE PODE

"Quatro sociedades de desenvolvimento criadas pelo Governo, constituídas com capital público, contraíram este mês junto da banca um empréstimo no valor global de 500 milhões de euros. A operação não necessita de autorização do Governo, mas acaba por agravar indirectamente a dívida da Madeira. Aliás, esta não é a primeira vez que o governo regional se socorre desta forma de desorçamentação ou engenharia financeira. As sociedades de desenvolvimento foram criadas para contornar o endividamento zero imposto pela antiga ministra Manuela Ferreira Leite...."
in DN(o de Lisboa, óbvio)

28 de dezembro de 2006

ALL IN THE FAMILY

Numa altura em que os tribunais portugueses continuam a fazer questão em "ser cautelosos" no afastamento de pais fisicamente abusadores, presumo que "para ver se se emendam...", em que milhares de pessoas aguardam a sua vez na longa fila da adopção, uma outra criança foi morta (presumivelmente, claro) vítima de maus-tratos. O cretino preconceito do predomínio do sangue sobre o amor causa e continuará a causar vítimas.
Até ao dia em que os legisladores metam os preconceitos bíblicos e o moralismo abraanico na gaveta e comecem a perceber que há pais e pais.
E que para sermos dignos desse nome temos de nos esforçar todos os dias.Fazê-los é fácil, amá-los e protegê-los é que custa. E, já agora, que anda por aí muita gente que tem mais condições de coração do que muitos "naturais".

20 de dezembro de 2006

DICIONÁRIO DE NOMES FAMILIARES

"Família" é tudo. O que vem de trás e ficará para a frente. A certeza de não estarmos com as raízes a apodrecer em água estéril. Que quando todos fugirem ao nosso toque leproso, haverá um irmão, ou uma filha, ou, se tivermos sorte, ainda uma mãe ou um pai que nos lavarão as chagas ignorando o cheiro dos nossos corpos e impedindo que reabramos as feridas com as nossas próprias mãos. São ainda aqueles que puxámos para o interior da caravana sem abrandar o passo.

Se existisse um dicionário de relações familiares teria entradas assim:

FILHOS- O que sai de dentro às mães e dos olhos aos pais. Camada que recobre o coração de forma permanente e indelével. Prolongamento de nós sendo outro. Razão mais que suficiente para renunciarmos à solidão humana.

IRMÃOS- Castigo inicial que se transforma em apoio lateral com os anos. Aquele ou aquela que estará do outro lado da linha telefónica - ou do que vier a ser inventado - a pedir ou a dar ajuda. Pelo menos até que a sua nova condição familiar o/a não consuma. Quem nos dá a certeza de que nem sempre fomos assim.

PAIS- Aqueles que estavam quando ainda só eles estavam. Os que recuaram quando outros chegaram. Os que avançaram quando outros recuaram. Os que se esqueceram da idade e das dores à vista das nossas dores e sem olhar à nossa idade. Os que vão estar aqui até que, seguros pela nossa mão, deixem de o estar.

AMANTE/AMIGO/AMIGA/HOMEM/MULHER- Todo o que nos ama para lá das nossas perfeições. O elo mais frágil da cadeia. Aquele em que nos apoiamos com mais força por ser do mesmo tamanho que nós e estar treinado no nosso passo de saltador de valas inundadas. O que pode mudar e quase sempre muda. O indispensável.

18 de dezembro de 2006

10
foi o número (aproximado) de takes que Lili Caneças exigiu ao operador da Tvi para que a mostrassem a entregar 4 mantas aos sem-abrigo junto à Cidade Universitária.
Queria provavelmente mostrar o seu lado bom...

AINDA O RIO

Para quem não acredita em tudo o que lê, aqui fica a entrevista à SIC.
O ANO DA BESTA

Alberto João Jardim estrebucha que este é o "ano da besta". Esta referência ao seu anus horrível assentará naturalmente no anúncio do fim do seu reinado com o dinheiro dos outros. Mas há motivos para lhe dar razão sobre 2006. Um deles é que até o João César das Neves já escreve contos.
Aqui, a prova do horror.
RECOMENDAÇÃO INTELECTUAL
Se acreditam na possibilidade de vir a gostar de lesmas cantoras que vivem nos esgotos, então avancem sem medo para o filme Flushed Away (Por Água Abaixo).
Um divertimento pegado. E não é só por ter baratas que lêem a Metamorfose do Kafka...
Lol!

16 de dezembro de 2006

PERÚS

Já se sabe quem serão os perús perdoados por George Bush neste Natal? Os felizardos que irão viver para o calor da Flórida?
Devem ser de origem iraquiana, com certeza...



Ah... espera, não é no Natal... É no Thanks Giving... Bom, alguém deverá ser perdoado. Provavelmente um dos milhares de negros condenados à morte que aguardam a sentença.
FRIO

Tenho os dedos gelados de escrever sobre o meu país

14 de dezembro de 2006


THE QUEEN

Um belo filme de Stephen Frears . Entra-se de pé atrás, preparado para a xaropada real e sai-se convencido.
Um dos filmes mais seguros deste realizador.

13 de dezembro de 2006

A LUZ ARTIFICIAL DAS LÂMPADAS

Este natal vai ser diferente.

Vamos dar pulseiras de ouro um ao outro e fantasiar que ainda nos amamos. Vamos cobrir a mesa com bolo-rei, broas de mel e rabanadas, enquanto sorrimos às crianças estonteadas que somos nós correndo à volta da mesma mesa. Ligar alto a televisão para não ouvirmos a chuva que cai na casa. No interior da nossa própria casa.

Este natal vamos descongelar um peru e enfiar-lhe no peito aberto pão, castanhas e as suas próprias vísceras (banhadas em vinho do porto, pois claro, para que não saibam a entranhas e o corpo de onde vieram as não rejeite, por impuras). E quando a gordura arder sobre a pele sem penas vamo-nos concentrar no cheiro para não pensarmos que na rua ao lado dorme, sobre um cartão, um outro corpo imerso em álcool. Este natal vamos de novo ser caridosos e beijar o pé do menino enquanto nos sentimos a melhor pessoa à face da Terra. Os lábios bem apertados para que não nos tomem por fracos capazes de entender que cada um tem os seus próprios pés e que só houve Um capaz de beijar sem escolher.

Este natal vamos enrolar as pérolas à volta do pescoço e simular que exibimos o coração. Ou, para lá do condomínio, carregar o carro do hiper com coisas que não poderemos pagar mas cuja dívida será como um colar de pérolas em volta do pescoço.

Este natal vamos ser humanos voltar a fingir que nos interessa mais alguma coisa do que travar o avanço inexorável da nossa morte.

12 de dezembro de 2006


A SAIA DA CAROLINA TEM UM DRAGÃO PINTADO

Que chatice, agora que o Ministério Público já estava a arranjar as coisas para deixar o processo dos apitos e dos árbitros e dos construtores civis e dos autarcas, criar pó e morrer, vem a mulher abandonada pôr a boca no trombone.
Até o Procurador Geral da República se "mostra preocupado".
Se calhar não vai poder ser tudo abafado como previsto
Chatice! Estas gajas não têm compreensão para assuntos sérios. Futebol e corrupção e assim.
E o pior é que de momento não se pode simplesmente mandar dar-lhe uma sova...
Vão ter que pensar noutra estratégia. Provavelmente formal, ou não vivêssemos numa justiça de papel.

11 de dezembro de 2006

NUNCA É DE MAIS

agradecer aos professores deste país que fazem o favor de mostrar os meus textos aos alunos, pedir-lhes que comentem ou façam trabalhos em seu redor. Se isso ajudar de alguma forma a criar ou desenvolver o amor pela Literatura e pelo Conhecimento, então muito obrigado.
Nenhum de nós está a mais no combate contra a ignorância galopante.
DE CESARINY E DAS TREVAS REINANTES

Recebi e-mail do meu amigo Perfecto Quadrado, uma das autoridades mundiais do estudo da literatura portuguesa, habitante das Canárias que é terra de mais sol do que cá. E conhecedor do trabalho de Cesariny como poucos.

"
Morreu-nos o Mário (Cesariny). As trevas, como dizia Pascoaes, são cada
vez mais trevas, o que causa grande regozijo nos cadáveres adiados que
procriam na caverna."

Respondi-lhe que era tudo verdade. Mas que as trevas sempre precederam a luz. A ignomínia está espalhada por cima da ignorância, mas nunca nos atingirá a todos.
Seria contrário à natureza humana.

9 de dezembro de 2006

DIA BOM

Numa terra em que toda a gente se queixa que não a deixam fazer nada, foi bom carregar estantes de ferro encontradas no lixo e que agora servirão de teia para projectores. Recortar cartões que serão utilizados como palas para as referidas luzes. Empurrar sofás para cá e para lá enquanto discuto com a minha colega co-realizadora os melhores planos que iremos filmar amanhã com a mini-Dv que nos emprestaram. E amanhã, ao fim do dia, estaremos com o resto dos voluntários cansados e sem dinheiro para cattering ou seja lá para o que for. Mas estaremos um passo à frente dos que usam o seu tempo para se lamentar ou tentar destruir os que imaginam como inimigos.
E isso, companheiros, ajuda a dormir em paz :)

7 de dezembro de 2006

TOP LITERÁRIO

Se houvesse dúvidas sobre o iliteracia dos portugueses bastaria olhar para o top da Fnac que tem entre os primeiros lugares (desde há semanas) as últimos dois milhões de páginas do José Rodrigues dos Santos, o livro de queixas do Santana Lopes e um romance sobre a vida de um cão.


ps: alguém me pode informar se para fugir de Portugal ainda se tem de ir "a salto" ou se já se pode ir pela fronteira?
O PEOPLE DAS ARTES

Andava há uns tempos deprimido com a minha aparência. Felizmente que uma "figura pública" resolveu meter mãos à obra e mudar o que temos de feio em... feio.
Um milagre de Natal. Acho
http://luisacastel-branco.blogs.sapo.pt/

6 de dezembro de 2006

OU COMEM TODOS OU NÃO HÁ MORAL

As finanças andam a decretar buscas a empresas de construção por suspeita de evasão fiscal.
Nâo! A sério?
Se encontrarem alguma coisa ficarei muito espantado. Construtores corruptos?
Daqui a pouco vão começar a dizer que há autarcas igualmente corruptos que lhes facilitam as negociatas...
Onde isto haveria de chegar...